Memorial(izar)
Laboratórios de sociabilidade sáfica; fazer história queer; três novidades
Temos um par de novidades, eventos para fechar este segundo semestre e inaugurar a primavera, e um ensaio em comemoração do dia da visibilidade lésbica (26 de abril). Há tanto para dizer sobre este corrupio histórico: 25, 26, 1 de maio. E no entanto, parte do percurso deste coletivo tem sido justamente aprendermos a concentrar os nossos esforços naquilo que temos capacidade de fazer. Às vezes, os seminários vão ser menos regulares. Muitas vezes, não teremos a capacidade de dizer tudo o que importa. Entre a morte lenta da democracia, os meandros da visibilidade, e o reconhecimento do nosso trabalho…bem, cá nos têm.
Saltem para o final para ficarem a par das próximas atividades.
Durante os anos em que esteve aberto, o Memorial foi um dos mais conhecidos bares lésbicos de Lisboa: um espaço de encontro, revelações, desejo e comunidade.
Hoje, sabemos surpreendentemente pouco sobre ele.
Na ocasião do AbriLés de 2026, o Centro de Documentação da ILGA Portugal, o blog Arquivo Sáfico e a Perversa Press propuseram celebrar e reconstruir essa memória coletiva, criando uma noite inspirada no Memorial – entre arquivo e pista de dança – como exercício de história pública: recolher, partilhar e ativar memórias em coletivo.
O ensaio que se segue insere-se num projeto de zine que resulta dessa noite e pretende preservar este pedaço de história lésbica. Em breve, divulga-se uma chamada para contribuições.
O estabelecimento sito na rua Gustavo de Matos Sequeira 42A, no Príncipe Real, teve várias vidas, mas uma das mais longevas foi enquanto bar lésbico. Antes de se chamar Memorial, chamou‑se Gato Verde e Gato Preto, ou Gato Verde Gato Preto; sob este(s) nome(s), terá feito parte dos primeiros bares gay à porta fechada surgidos ainda antes da revolução, embora não seja certo, e muito menos a data concreta. A história da noite é efémera: confundem‑se os nomes e os factos, mas perduram as associações. A dada altura passa a chamar‑se Memorial e manter‑se‑ia aberto até ao novo milénio. A última menção nas páginas da imprensa LGBT portuguesa data de 2008; existe ainda um comentário em nome próprio num site de avaliações, feito em 2013.
Durante estes anos, o Memorial não foi o único bar lésbico em Lisboa, mas foi certamente um dos que se manteve aberto durante mais tempo - o que não é coisa pouca. Espaços para lésbicas são por natureza difíceis de manter à tona, em qualquer contexto geográfico; hoje, é quase inconcebível imaginar um sítio nesta cidade durar mais de cinco anos (saudades, Valsa). Era uma Lisboa diferente, onde ainda existiam recantos, como o Bairro Alto e o Príncipe Real, com rendas mais baixas, e onde uma certa boémia podia ainda assentar arraiais. O Memorial atravessou a mui discreta descriminalização da homossexualidade, a entrada na CEE, a viragem à direita, a afirmação de uma cidadania LGB(T) nos anos noventa e dois mil, e as primeiras gerações queer. Se dermos peso à data de 2013, terão sido os anos da troika a desferir o golpe fatal. A esta cronologia somam‑se certamente outros micro‑processos que terão afetado as preferências do público que ao bar se deslocava.
Ao longo do tempo, o Memorial ganha um estatuto quase mítico. Surge em relatos, testemunhos, arquivos e literatura como “o” bar lésbico, “a catedral”. Mas, como qualquer aspeto do passado queer, está longe de ser linear. Funcionava como um espaço que parecia atrair quase passivamente a sua clientela, construída por passa‑palavra: os anúncios e flyers nunca o identificam explicitamente como bar lésbico. A gerência do espaço é objeto de alguma abstração, não sendo claro que tenha sido sempre, ou exclusivamente, sinónima da cantora Dina. Em múltiplos relatos, esta gerência é acusada de regular comportamentos demasiado visíveis ou excessivos, passíveis de revoltar a clientela heterossexual. Esta tensão não deve ser lida apenas como conservadorismo pessoal, mas como parte de uma negociação estrutural num espaço marcado por estigma social e dependência económica.
É certo que o Memorial era suficientemente reconhecível como espaço lésbico para ser descrito em pelo menos dois jornais, o Crime e o Diabo, como um antro de camionas feias e gordas. A violência deste olhar mediático reafirma hierarquias de género, corporalidade e respeitabilidade que atravessavam também os próprios espaços lésbicos. O insulto externo aponta, de forma grotesca, para uma tensão interna persistente: quem pode ocupar o centro da “catedral”, e a que custo.
Estas contradições não são ruído numa narrativa heroica; são o próprio arquivo através do qual este espaço se torna inteligível. É recordado com carinho, mas também alguma censura: pequeno, escuro e pouco tendência. Não era um Frágil; era o lugar onde sáficas da área metropolitana de Lisboa iam dançar slows numa cave. Foi certamente um local onde se viveram inícios e fins, amores e desacatos, felicidade e desilusões; momentos de insegurança e momentos de total comunhão. As nossas antecessoras e antecessoris quase nunca são, nem devem ser, ídolos. Quanto mais profundamente estudarmos as contradições que os atravessavam, mais preparades estaremos para enfrentar as do nosso presente. No lugar da nostalgia, interessa-me, antes, ler o Memorial como um laboratório precário de sociabilidade sáfica, marcado por exclusões, negociações e compromissos, pois é aí que se joga a sua relevância histórica.
É a partir desta leitura crítica que se inscreve a noite organizada para o Abrilés de 2026, como exercício de aproximação material e afetiva. Os calendários falsos, a bola de espelhos, a playlist construída com música anterior a 1984 (privilegiando artistas que sabemos terem ali atuado), a performance de drag, o vídeo com testemunhos, as impressões de edição limitada e a estação colaborativa de produção da zine funcionaram como dispositivos de tradução parcial, para experimentar o que significa trabalhar, no presente, com os seus restos, ritmos e fantasmas. Quem sabe se, aberto hoje, nos sentiríamos bem‑vindes; se teríamos coisas boas a dizer; se faríamos, de facto, o esforço de sair de casa e ir lá, mantê‑lo aberto. Mas por uma noite, inserimo-nos numa história que reclamamos como nossa.
O desconforto e as contradições não apagam a memória afetiva; antes a tornam politicamente legível. É por isso que deixo os recortes reproduzidos nesta zine falar por si. A intenção é guardar uma espécie de sebenta, para que outres possam pegar nestas pistas e levá‑las mais longe. Os arquivos queer e LGBTQIA+ em Portugal sobrevivem em grande estado de precariedade, frequentemente conservados por pessoas individuais dentro dos seus próprios limites, mas existem. A esmagadora maioria do que se encontra em arquivos públicos permanece por identificar. O Centro de Documentação, existente desde o primeiro centro da Ilga em 1997, merece ser mais acarinhado. As referências consultadas encontram‑se todas no seu acervo. Destaque especial para a Organa e a Lilás, que, enquanto principais revistas lésbicas em Portugal, constituem por si só uma cápsula de debates importantíssimos.
Temos, infelizmente, de agradecer ao Expresso a única fotografia conhecida do interior do bar, usada para a capa desta publicação. Remete-nos para o in media res de uma noite a abarrotar, sugerindo que, a bem ou a mal, entre aqueles perfis de costas para a câmara, não há como não haver de tudo. Quem existe nas entrelinhas sabe-se reconhecer: as que procuram uma vida e as que querem passar uma noite; as que encontraram a sua casa e as que nunca mais voltam; as que passam por hétero e as camionas; as (trans)femmes e es (trans)mascs; as migrantes, putas e travestis; as pansexuais, bissexuais, e todo o espectro dessa coisa periclitante a que continuamos, apesar de tudo, a chamar - “lésbico”.
Jo Matias
Instituto de História Contemporânea/Quir Research Hub
Próximos eventos
Poéticas da Castração é uma espécie de masterclass em quatro partes de Odete/Lévi, que temos imenso prazer em oferecer ao público geral. É um misto de ciclo de palestras e grupo de leitura em torno do seu trabalho interdisciplinar sobre a história da castração, do eunucismo, e das epistemologias não-reprodutivas. São quatro sessões, a decorrer presencialmente, na FLUL: 14, 21 e 28 de maio e 11 de junho, às 18h, na sala A202 Anfiteatro IV. Entrada livre, e repetimos como sempre: se estás fora da academia, interessa-nos especialmente que venhas.
O Quir Seminar Series #8 tem como título “A emergência de novos discursos críticos às identidades” e decorre 9 de junho às 17h. Juntamos Leandro Colling, professor titular da Universidade Federal da Bahia, e a “nossa” Luísa Semedo, investigadora da Université Sorbonne Nouvelle, para debater a emergência dos novos discursos críticos às identidades de género e da sexualidade oriundas tanto dos espectros políticos da esquerda quanto da direita no Brasil e em Portugal. Sala na FLUL ainda a confirmar.
Em 2025 organizámos duas sessões dos encontros de investigadories em estudos queer, que se pretendia um convívio online aberto a qualquer pessoa dedicada (ou que se gostaria de dedicar) aos estudos queer em Portugal: alunes de qualquer ciclo de estudos, investigadories com e sem afiliação, artistas, etc. Retomamos agora no fim de maio, dia 28, às 18h30. Quem já se inscreveu nos anteriores vai receber um email; quem se gostaria de juntar agora, pode preencher este formulário, que também estará linkado no Instagram.
Contamos convosco: para ler, participar, criticar, partilhar. Até a uma próxima.


